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terça-feira, 24 de novembro de 2009

ORIGEM
O significado da palavra candomblé sofreu mudança no transcorrer do tempo.A princípio, candomblé era o nome dado às grandes festas públicas do culto iorubá, Fosse qual fosse a sua causa.Estas festas aconteciam anualmente e eram bastantes conhecidas dos habitantes das Cidades onde os candomblés surgiram.Mais tarde, o termo passou a designar não apenas as festas, mas também os lugares onde eles se realizavam: os terreiros. Mais tarde ainda, passou a designar a própria religião. Podemos definir o termo candomblé, atualmente como religião de culto aos orixás, entidades africanas associadas aos elementos naturais. É uma religião mágica e iniciática, o que significa que alguém que ela se converta deve obrigatoriamente aprender, passo a passo, os mistérios religiosos e submeter se a uma rígida hierarquia. Também deve manter, por toda sua vida, uma série de preceitos e tabus advindos do fato de partilhar sua cabeça com um orixá, pois é também nela que o orixá vive depois da iniciação.
As Origem e Culturas
É possível separar o candomblé da memória dos tempos da escravidão da América, uma vez que ele tem origem na vinda dos negros africanos para serem utilizados como escravos. Estes negros eram provenientes de diversas tribos (nações) da África, que muitas vezes sequer falavam a mesma língua e que apresentavam identidades culturais diferentes. Admite-se, em grande escala, três “padrões” de cultura negra na América 1. Fanti-Ashanti (originária da costa do ouro) 2. Fon (de origem Daomeana) 3. Yorubá (da Nigéria, com influências Banto) Esta última teve importante influência, principalmente no Brasil e em Cuba. Ainda que as outras duas culturas tenham sido mais atuantes na América Inglesa e Holandesa (Fanti-Ashanti) e na América Francesa (fon), no Brasil sua importância também é revelante; especialmente quando falamos dos aspectos religiosos das culturas negras.Podemos então pensar nessas culturas da seguinte forma:
Culturas Sudanesas
Os povos iorubá da Nigéria, os Daomeanos e os Fanti-Ashanti (da costa do ouro), além de outros grupos menores, foram seus mais importantes representantes.Entre eles, destacam-se os seguintes grupos: Nagô (yorubá), Jeje (daomeano) e Mina (fanti-ashanti). Este grupo está representando, no candomblé brasileiro pela “nação” Ketu e pela “nação” Jeje, representada especialmente pelo tambor de mina,
entre outros.
Culturas Bantos
Representadas pelas inúmeras tribos dos grupos Angola Congolês, como os congos, angolas, cabindas, moçambiques e outros. Este grupo, representado no Brasil, pela “nação”angola, pelo “candomblé de caboclo”e outros.Culturas Guineano-Sudanesas Islamisadas Representadas pelos grupos fula, mandiga e haussá. Grupos islamisados que não formaram, portanto, nações de candomblé.
MITOS
São várias as versões dos mitos dos orixás e, como em todos os mitos, algumas são incompatíveis entre si; mas a essência dos orixás pode ser perfeitamente absorvida através destas narrativas. Para os iorubás, a melhor representação do mundo é uma cabaça dividida ao meio, uma das metades constituindo o céu (orum, Obatalá), e a outra a terra (ayê, Odudua). No princípio de tudo, entretanto, não havia a terra, e os orixás viviam no orum, ao redor de Olorum, o senhor do Universo, secundado por Obatalá. Obatalá uniu-se a Odudua e tiveram dois filhos: Aganju, a terra firme, e Iemanjá, as águas dos oceanos.
Outro mito diz que a terra era então um vasto oceano e os orixás desejavam conhecê-lo. Obatalá encarregou Oxalá de descer ao ayê, a metade inferior da cabaça, e espalhar o pó preto que formaria a terra firme. Entregou a ele o saco com o pó preto e uma galinha. Oxalá então partiu em viagem, mas no meio do caminho sentiu sede. Exu, vendo que Oxalá sentia sede, ofereceu-lhe vinho de palma e Oxalá bebeu. E tanto vinho que Oxalá que embriagou-se e caiu em sono profundo. Exu tomou de Oxalá o saco da criação e o levou a Obatalá, a quem contou que Oxalá beberá e negligenciara sua tarefa.
Obatalá então entregou o saco a Odudua, que com ele desceu à terra, jogou o pó preto sobre o oceano e tornando se ela mesma uma galinha, ciscou o pó preto até que se formaram os continentes e toda terra firme que há.
Essa terra firme é Aganju, filho de Odudua e Iemanjá. Obatalá então criou um grande dendezeiro, pelo qual desceram à terra todos os orixás, cada um escolhendo uma parte do mundo que lhe agradava, e que passou a ser de seu domínio.
Assim, Oxum e Obá escolheram as águas doces; Iansã quis os ventos; Xangô os trovões e as cachoeiras; Obaluaiê à terra firme; Nanã a lama dos fundos dos rios e os abismos; Ogum quis as montanhas e os minérios; Oxossi as matas e florestas; Oxumarê o arco – íris; Ewá os horizontes. Apenas Exu não sabia o que escolher, pois tudo e nada lhe agradava. E considerou-se assim dono de tudo um pouco, com que os demais orixás concordaram. Desse modo o mundo foi criado e dividido entre os orixás, e é por isto que cada um detêm o domínio de uma parte da natureza.
Outro mito narra que Obatalá reuniu todos os materiais necessários à criação do mundo e mandou a estrela da manhã convocar todos os orixás. Apenas Orunmilá apareceu. Por isso Obatalá o recompensou, permitindo que apenas ele conhecesse os segredos da criação e do por vir. E foi assim que a estrela da manhã revelou a Orunmilá que todos os segredos e materiais da criação se encontrava numa concha de caramujo, dentro de um vaso que ficava entre as pernas de Obatalá.
Orunmilá tornou-se então, dono dos segredos, das magias e conhecedor do futuro, das vontades, aquele que sabe a vontade de Obatalá e de todos os orixás, o que sabe com que matéria o homem foi feito.
Outro mito narra que tendo tido o conhecimento das matérias da criação, teria sido Orunmilá e não Odudua o criador da terra, aquele a espalhar o pó preto sobre as águas. Orunmilá então é considerado o amigo de Obatalá. Quis então Obatalá criar os homens. Ajalá, o orixá oleiro foi incumbido de moldar as cabeças dos rios e outros elementos da natureza.
Ajalá moldava as cabeças e as punha para assar em seu forno. Mas Ajalá tinha o hábito de embriagar-se enquanto cozia o barro e criou muitas cabeças defeituosas, queimando algumas e deixando outras com o barro cru. Depois que Ajalá terminava de fazer os oris (cabeças) Obatalá soprava nelas e lhes dava eni, a vida.
Assim surgiram a terra e os homens, sob o domínio dos orixás. Cada orixá viveu então episódios diversos em sua história, dos quais narraremos aqui apenas alguns, pois a quantidade de versões dos mitos é praticamente infinita.

CULTURA AFRICANA

AS CERIMÔNIAS PÚBLICAS :A FESTA DE SANTO .
Festa” ou“Toque” é o nome que se dá, genericamente,à cerimônia pública de candomblé .Como os termos revelam ,está é uma cerimônia essencialmente comemorativa e musical .
Seu objetivo principal é a presença dos orixás entre os mortais.Sendo a música uma linguagem privilegiada no diálogo dos orixás,a festa pode ser entendida como um chamado ou uma prece , pedindo aos deuses que venham estar junto a seus filhos , seja por motivo de alegria ou de necessidade destes.
Tratando-se de uma festa,todo terreiro é enfeitado com folhas na parede e no chão e os três atabaques ( RUM , RUMPI,LÉ ), considerados aqueles que chamam os orixás juntamente com EXU, recebem comidas e são enfeitados com laços na cor do orixá ao qual foram consagrados, vale dizer, iniciados também.Todas as festa acontecem no espaço do terreiro denominado“barracão, onde se encontram os atabaques, à frente dos quais canta e dança o povo- de- santo separado ( ainda que dentro de um mesmo ambiente )da assistência,à qual também é reservada uma área .
Um toque comum começa, geralmente, pelo ritmo dos atabaques chamando a roda - de- santo”( os filhos desanto organizado circularmente), tendo à frente o pai - de - santo que entra tocando o adjá
( sineta ),seguindo pelos seus subordinados na hierarquia:mãe - pequena, pejigan , axogun,ogãs,ekedes,ebomis,iaô ordem de iniciação ou organizados por “barcos”e no fim da roda,os abiãs. Esta formação pode,ainda, dividir - se em duas rodas concêntricas:a dentro reservada aos ebomis ( iniciados a pelo menos 7 anos ) e a de fora formada pelos demais. A mãe ou pa - pequeno e as ekedes também costumam tocar o adjá ( sineta ritual ). Nas festas as roupas costumam ser de grande beleza , geralmente fazendo alusão,mesmo que no simples desenho do tecido,ao orixá individual do adepto .
Neste dia são usadas as contas dos orixás,os brajás ( colar de contas feito em gomos , símbolo do conhecimento e poder ) e as faixas na cintura,símbolos de ebomis e tudo o que identifique o status religios do indivíduo A roda entra dançando e,algumas vezes ,cantando alguma cantiga própria deste momento.Estando no barracão,os atabaques param,o pai- de-santo saúda EXUe tem início o padê .
PADÊ DE EXU
O padê é uma cerimônia que tem por finalidade “despachar” EXU (através da oferenda de farinha com dendê e gim),seja porque se acredite que ele possa causar perturbações ao toque,seja porque se acredite que é ele o principal mensageiro,que abrirá os caminhos para vinda os orixás.Dançando,a dagã e a sidagã,ou a mãe-de-santo e seu pejigãn seguram uma quartinha com água ou gim e um alguidar com farofa e dendê, ou farinha de milho e com ele saúdam os atabaques, as portas,o ariaxé enquanto todos cantam para EXU. A seguir,eles levam para a rua a comida e a bebida de EXU e a despejam num lugar onde ele possa comer .
XIRÊ
Fim do padê,o xirê prossegue Xirê é uma estrutura seqüencial de cantigas para todos os orixás cultuados na casa ou mesmo pela “NAÇÃO” começando por EXU e indo até
OXALÁ .
A palavra xirê significa brincar,dançar,e denota o tom alegre da festa de candomblé,onde os próprios vêm à terra para dançar,brincar com seus filhos. Durante o xirê,um a um,todos os orixás são saudados e louvados com cantigas próprias,às quais correspondem coreografias que particularizam as características de cada deus É nesses momentos,de grande efervescência ritual, que as divindades “baixam” Na maioria dos candomblés o xirê segue a ordem seguinte :
primeiro toca-se para EXU,no padê ( porque ele é o intermediário entre os homens e os orixás,entre o mundo do além e o da terra) ;
depois para OGUM ( porque é o dono dos caminhos e dos metais e sem ele e suas invenções da faca e da enxada o sacrifício aos orixás e o trabalho na terra estariam impedidos );OXOSSI (porque é irmão de OGUM e porque também está ligado à sobrevivência através da caça e da pesca) OBALUAIÊ (porque é o orixá da cura das doenças, ou aqueles que as traz ); OSSAIM (dono das folhas que curam daí sua ligação com OBALUAIÊ e também porque nada se faz sem folhas no candomblé ); OXUMARÊ ( por sua ligação com XANGÔ como escravo deste e como aquele que faz a ligação entre o céu (nuvens ) e a terra) XANGÔ deus do trovão e do fogo, trazido por OXUMARÊ ) ; OXUM (esposa favorita de XANGÔ); LOGUM - NEDÉ (o filho de OXUM , mas com OXOSSI); IANSÃ (que no mito criou LOGUM-NEDÉ juntamente com OGUM quando OXUM o abandonou);OBÁ
(tida em muitas casas como irmã de IANSÃ e a terceira mulher de XANGÔ ); NANÃ(a mais velha das yabás-orixás femininos) ;
YEMANJÁ( a dona das cabeças e mulher de OXALÁ) e, finalmente
OXALÁ,o senhor de toda a criação.Algumas casas, entretanto,segue outra ordem:EXU é louvado antes do começo da festa geralmente às 6 horas da tarde,sendo“despachado”. Quando começa a festa toca-se para OGUM,OXOSS,OSSAIM ( porque são irmãos );OBALUAIÊ ,OXUMARÊ,EWÁ e NANÃ ( três irmãos e sua mãe respectivamente,tidos como uma “família”da “nação” Gegê) ; OXUM e LOGUM-NEDÉ ( mãe e filho);IANSÃ e OBÁ (duas irmãs),XANGÔ,YEMANJÁ e por fim OXALÁ ( filhos e seus pais respectivamente ). Está seqüência parece privilegiar os vínculos de parentescos e de nação,enquanto à primeira privilegia os acontecimentos míticos que colocam em relação os orixás .Seja qual for sua seqüência e sua concepção cosmológica,ela costuma ser fixa para cada casa.É ele que,de alguma forma,norteia os acontecimentos da festa,fazendo, entre outras coisas,com que os filhos identifiquem, através das cantigas e ritmos, os momentos apropriados ao cumprimento da etiqueta religiosa como,por exemplo,dançar de certa maneira ou pedir a bênção à mãe-criadeira quando se toca para o orixá dela .
SAÍDA DE IAÔ
A festa de saída de iaô,que ocorre ao final de cada iniciação,é sempre muito concorrida e tida como uma das festas de maior axé,pois um orixá está “nascendo”O iaô normalmente costuma fazer quatro aparições em público no dia da festa,conhecidas como“saída de OXALÁ”ou“de branco”,saída de nação”ou “estampada” saída “do ekodidé”ou “do nome”e saída do rum ou “rica”.
SAÍDA DE OXALÁ
Na segunda saída o iaô entra no barracão vestido e pintado com as cores da “nação”. Há quem diga, no entanto,que esta saída especifica a “qualidade”(avatar)do orixá que está saindo Ele segue novamente a ordem dos cumprimentos, agora não mais se deitando ao chão,para dar o dobale e o paó,mas somente com seu jicá(saudação que os orixás fazem com o corpo),uma vez que o ilá ( grito com que o orixá se anuncia)só será conhecido após a “queda”(retirada)do kelê .
Saída de nação
Na segunda saúda o iaô entra no barracão vestido e pintado com as cores da (“ nação) . Há qum dica, no entanto, que esta nesta saída especifica a ( qualidade) (avatar ) do orixá que esta saindo . Ele segue novamente a ordem dos comprimentos ,agora não mais se deitando ao chão , para dar o dobale e o pão,mas só mente com seu ginca (saudação que os orixás fazem com o corpo ) , uma vez que o ila ( grito co que o orixá se anuncia ) só será conhecido após a queda ( retirada) do quele .
SAÍDA DO NOME
A terceira saída, muito esperada,é a “saída do orukó” também chamada “saída do ekodidé”( ekodidé é a pena vermelha do papagaio que se acredita propicie a fala do orixá ) ou “saída do nome”, momento em que o orixá revelará publicamente o seu nome secreto,que é parte de si mesmo. Apenas o iaô e a mãe - de - santo conhecem este nome.
É um momento de suspense,estimulado pelos outros filhos de santo que geralmente “viram”(entram em transe) ao ouvir o nome, tamanho dizem ser o axé no terreiro neste momento .
Dito o orukó,(nome) os atabaques imediatamente começam o adarrun( ritmo muito acelerado)e o orixá é levado para vestir suas roupas de rum ( dança ),ou seja, suas vestes típicas e suas“ferramentas”para dançar suas cantigas, pela primeira, vez em público .
SAÍDA DO RUM
Na última saída,a “saída do rum”ou“saída rica” o orixá entra,saúda os pontos principais com seu jicá e dança pela primeira vez em público.
Geralmente,nessa saída,o orixá dança apenas as músicas que lhe são atribuídas e nenhuma outra,mas há casos em que o novo orixá dança também para o orixá do pai-de- santo Não convém,entretanto,fazer dançar o orixá muito novo. Findo o rum,toca -se uma cantiga específica para retirar o orixá em transe da sala(“canta para subir” dizem os alabês) e o xirê prossegue até OXALÁ, encerrando o toque .
Está concluindo desse modo o ritual .
AJEUN
Sendo o ato tão importante no candomblé, é natural que comer constitua um ritual do qual todos possam participar.
Portanto, ao terminar o xirê toca-se e canta-se uma cantiga para a entrada do ajeun , refeição ritual deve ser compartilhada por todos os que estão no terreiro e que pode constar das mais diversas comidas e bebidas,de acordo com o orixá e com as posses do iniciado .
Essas comidas são preparadas com a carne dos animais sacrificados, pois apenas as vísceras e o sangue (onde se acredita estar o axé) são apreciados pelos orixás Desse modo sempre há carne de cabrito,de carneiro,de porco, muito bem temperada,e arroz , farofa,além das comidas rituais como acarajé,omolocum, feijoada,canjica,etc. .
O ajeun entra no barracão em alguidares e opons (gamelas de madeira), carregados na cabeça pelos filhos-de-santo e é depositado sobre a esteira,no chão.Chama-se a esta “mesa”de mesa dos orixás.
Ao cessarem os atabaques,a comida começa a ser servida,respeitando-se a hierarquia . Serve-se primeiro a mãe ou pa -de-santo, os ebomis iaôs,abiãs e finalmente o público, que não deve recusar o prato de ajeun,o que é considerado uma grande desfeita,pois quebraria o momento mágico de partilha do axé dos orixás .

Ao público e ao povo do Candomblé

Reportagem: Vander Prata -

Iyalorixás assumem a crença como uma religião independente da católica

Daqui para frente, os filhos de gente de Santo não vão mais aprender sua tradição dos Orixás em sincretismo com a religião católica. As iyas e babalorixás da Bahia não querem, também, permitir mais que sua religião seja tratada como folclore, seita, animismo ou religião primitiva, "como sempre vem ocorrendo neste pais, nesta cidade". Querem também dar um basta à utilização de seus trajes, e rituais, em concursos oficiais ou de propaganda turística.

Esta posição assumida por algumas das mais respeitadas mães de Salvador - Stella de Oxossi, Mãe Menininha do Gantois, Tete de Yansã, Olga do Alaketo e Nicinha do Bogum - deverá repercutir intensamente na comunidade local, uma cidade que cresceu vendo o culto de candomblé sendo sincretizado com o catolicismo. "Já imaginaram o Senhor do Bomfim sem Oxalá?" Serena, Mãe Stella de Oxossi, - uma das mais respeitadas ialorixás da Bahia, sempre avessa a publicidades e a imprensa, falou com exclusividade ao Jornal da Bahia, explicando:

- Os Santos e imagens católicos têm seus valores. Nós não estamos a fim de deixar de acreditar, por exemplo, em Santa Bárbara. Um espírito elevado, sem dúvida. Mas sabemos que Iansã é uma outra energia, não é Sta. Bárbara. Religião não se impõe, depende da consciência de cada um. Mas queremos respeito com o Candomblé. Não tem nada a ver, por exemplo, arriar-se comida de Iansã nos pés da imagem de Sta. Bárbara. Não tem sentido. A comida é de Iansã, é outra energia, completamente diferente do que é Sta. Bárbara, entende?

Pensamento Livre

Mãe Stella participou ativamente da recente Conferência Mundial da Tradição dos Orixás. Ela não tem dúvida de que esta atitude deverá ter ressonância entre a população. Sobre o que a Igreja Católica vai dizer? Ela responde: "O Pai de Santo que tiver coerência com seus princípios não vai mais sincretizar, mas vai passar para seus filhos os nossos conhecimentos. Quanto ao que pode dizer a Igreja, o culto, o pensamento é livre. Respeito muito D. Avelar, mas cada um deve ter sua consciência. Essa coisa de mandar na consciência das pessoas, neste fim de século, não é mais possível". E diz mais: "Também não estamos forçando todo mundo a acreditar no Candomblé". Para concluir:

- O Candomblé não é incompatível com a religião Católica. Mas é vice-versa. Aí, fica com cada pessoa e sua consciência, de dizer que é de Ogum, o que não quer dizer que acabe sua fé em Santo Antônio. Apenas, como disse, são energias diferentes. Vice-versa.

Mãe Stella tem plena sabedoria do que ocorre com os ritos/magias da crença nos Orixás. Salvador é considerado polo turístico pelo governo. E o Candomblé sua mais forte expressão popular. O que pode acontecer, por exemplo, com o carnaval da Bahia? Ela discorda profundamente da utilização de trajes-símbolos sagrados.

- Sair vestido de santo ou usando símbolos é pura falta de respeito, uma profanação com nossa religião.

Como ficam as saídas para as ruas do Filhos de Gandhy ou mesmo da versão mais moderna do Afoxé, o Badauê? Mãe Stella não entra no mérito ("são afoxés, alegria do carnaval") mas, absolutamente não concorda com a "profanação dos Orixás". Profanar, aqui, significa levar para fora do terreiro preceitos e segredos do culto.

- Não há porque ficar enganando. Precisamos ser respeitados como religião e não como faz a imprensa, por exemplo, daqui de Salvador, que inclui nossas casas de culto nas colunas de folclore.

- Já passamos do tempo de ter que esconder nossa religião. Nossos antepassados, para não serem massacrados foram levados ao sincretismo. É isto que queremos parar de fazer.

Outro aspecto da conversa com Mãe Stella: os artistas, os estudiosos, enfim, a crescente aproximação da intelectualidade para beber na fonte e depois utilizar o aprendizado, seja nas artes ou nas teses acadêmicas, sem nada reverter para o Candomblé. Ela responde: "Os sabidos que andam pelos Candomblés não estão agindo certo. Não sou contra um pintor pintar Xango, mas quando ele começa a utilizar-se disso para ganhar muito dinheiro, para profanar, está errado. Isto tende a desaparecer, com o crescimento de nossa consciência dentro de nossas casas".

Durante a II Conferência Mundial da Tradição dos Orixás, Mãe Stella propôs ação concreta: o ensino da língua yorubá e o ensino da tradição dos Orixás, "e não somente da religião católica pois se você perguntar para a criança de que religião ele é, vai dizer "católica" e na verdade é filha de gente de Santo, mas ela tem medo, ensinaram errado para ela".

Como seria a concretização de sua idéia? Mãe Stella espera que "as autoridades tomem as providências para satisfazer o desejo de toda uma Comunidade". O que compete às Iyas e Babalorixás, eles já deram a partida. Esta vigorosa carta divulgada ontem traz no seu âmago um grito de liberdade: Ma beru, Olorum wa pelu awon omorisa. Em outras palavras, quer dizer: "Não tenha medo, Deus está com todos os Filhos de Orixá".

Daqui para a frente, os filhos de gente de Santo rompem, decididamente, com quase cinco séculos de silêncio, imposto desde a chegada das masmorras e dos pelourinhos, para fazer uma só voz com Mãe Stella:

- Já passamos do tempo de ter de esconder nossa religião.


Cartas abertas ao público:


Ao público e ao povo do Candomblé

As Iyas e Babalorixás da Bahia, coerentes com as posições assumidas na II Conferência Mundial da Tradição dos Orixá e Cultura, realizada durante o período de 17 a 23 de Julho de 1983, nesta cidade, tornam público que depois disso ficou claro ser nossa crença uma religião e não uma seita sincretizada.

Não podemos pensar, nem deixar que nos pensem como folclore, seita animismo, religião primitiva como sempre vem ocorrendo neste pais, nesta cidade, seja por parte de opositores, detratores: muros pichados, artigos escritos - "Candomblé é coisa do Diabo", "Práticas africanas primitivas ou sincréticas", seja pelos trajes rituais utilizados em concursos oficiais e símbolos litúrgicos consumidos na confecção de propaganda turística e ainda nossas casas de culto, nossos templos, incluidos, indicados, na coluna do folclore dos jornais baianos.

Ma beru, Olorum wa pelu awon omorisa
Salvador, 27 de Julho de 1983

Assinaram:
- Menininha do Gantois, Iyalorixá do Axé Ilé Iya Omin Iyamassé
- Stella de Oxossi, Iyalorixá do Ilé Axé Opô Afonjá
- Tete de Iansã, Iyalorixá do Ilé Nassô Oká
- Olga de Alaketo, Iyalorixá do Ilé Maroia Lage
- Nicinha do Bogum, Iyalorixá do Xogodô Bogum Malê Ki-Rundo